Sorte



Os gregos imaginaram uma mulher como ela quando descreveram Afrodite, a figura dos anjos foi inspirada na beleza daquela mulher, Sandro Botticelli sonhou com ela antes de pintar O Nascimento de Vênus. É verdade que o Alfeu exagerava na medida quando falava sobre Elora, a chefona da repartição, mas é realmente difícil discordar dele.

Verdade é que o ambiente de trabalho já não era mais o mesmo desde que uma nova funcionária chegou àquele lugar. Alta; cabelos ondulados (quase cacheando), loiros em sete tonalidades;  olhos castanhos; fazia boxe às terças e quintas; sempre muito bem vestida... Linda, mas muito séria também. Não sabia cozinhar, coitada, vai ver foi por isso que, mesmo sendo tão jovem, estava divorciada.

Subordinado a toda essa beleza e autoridade estava Alfeu, antigo funcionário da casa.  Um solteirão boa praça, gentil e malandro, boa companhia pro futebol ou pra missa de sétimo dia. Acima de tudo isso, era dedicadíssimo ao seu trabalho. Mas era solitário esse bom homem, quem o via tão do seu jeito nem imagina a imensidão de melancolia que havia dentro dele.

As coisas mudaram bastante quando a  nova patroinha chegou por ali.  Todos comentavam  a respeito dela em todos setores. O "amigão" também já não era o mesmo, aquela mulher despertou o velho tigre dentro dele. Ele, que era até um tanto quanto desleixado com as roupas, comprou novas camisas, passou a usar gravatas mais vezes durante a semana, usar bons perfumes amadeirados e, dizem as más linguas, perdeu até uns quilos. Não se sabe ao certo se ele estava verdadeiramente apaixonado, mas algo diferente, depois de tanto tempo, mexeu com ele novamente.

Ela passava, ele olhava e ela nem nada. Os relatórios eram entregues à chefe com diversas recomendações e com prestações insignificantes de detalhes, mas Elora nunca levantou os olhos para o bom camarada. No elevador, ele puxava conversas que eram quase monólogos.

— Não sei o que é pior: pegar esse engarrafamento de lá de casa até aqui ou achar uma vaga perto do prédio, né?— arriscou ele.
— É.

Outro dia mesmo, coitado, exalando feromônios e todo seu pseudocharme sedutor, tentou mais uma vez deixando secretamente um vaso de rosas vermelhas com um bilhete na sala da loira. Mas, para sua decepção, percebeu que as flores permaneceram estáticas e o bilhete não foi aberto. Alfeu continuou frequentando aquela sala para entregar relatórios, mas Elora jamais o olhou nos olhos. Isso comprometeu por demais o rendimento profissional do Dom Juan, seu serviço já não era mais impecável como sempre e ele já se mostrava emocionalmente abalado. Pobre Alfeu.

Algo que não pode ser dissociado ao mês de Dezembro é  a confraternização de fim de ano. O Alfeu de outrora era o protagonista desse evento na repartição. Já foi vestido de Papai Noel, já fez discurso emocionado, fez até papel de anjinho junto com o rapaz da copiadora em peça de natal. Nesse ano, entretanto, estava meio desmotivado. Não participou de nada, ficou meio longe dos festejos e, por não estar no clima, resolveu sair bem cedo sem se despedir de ninguém.

Passando pelos corredores mal iluminados e repletos de enfeites natalinos,  percebeu que uma certa porta estava entreaberta. Segurando o paletó por cima do ombro, deu uma  leve empurrada na porta e viu sua linda chefe chorando alto e arrancando pétalas das rosas de um vaso. Ao perceber a presença de outra pessoa, levantou-se enxugando os olhos e, muito cambaleante, foi na direção do Alfeu.

— Me desculpa, ouvi o choro e só abri a porta pra ver se está tudo certo. Licença... — tratou de dizer rapidamente.
— Seus olhos... Seus olhos são tão bonitos...
— Ah, obrigado. Eles mudam de cor tam... — ele foi interrompido por um choro desesperado e teve que ocupar os braços com uma bela mulher caindo.
— Seus olhos... —  repetiu Seus olhos são tão bonitos... — foram as últimas palavras que disse ela nos braços dele antes de beijá-lo como se tivesse acabado de reencontrar a humanidade depois de vinte anos numa ilha deserta com mais  duas freiras velhas. 

Bem, ninguém sabe ao certo o que levou-a a fazer isso e nem como esse episódio teve continuidade. É tudo pura especulação do pessoal. Mas as coisas não terminaram por aqui. No dia seguinte, ele foi procurá-la.

— Bom dia! Tudo bem?
— Tudo mais ou menos bem — disse ela com cara de enxaqueca, dirigindo atenção à ele pela segunda vez na vida — em que posso lhe ajudar?
  É sobre o que aconteceu ontem, eu não poderia deixar de vir aqui falar com você...
— Nossa, que vergonha! Eu não sei o que aconteceu comigo ontem, juro! Mas que bom que você apareceu aqui, tenho quase certeza que esqueci a chave do meu carro no seu carro.
— Meu carro? Não, nunca saímos. Eu vim buscar aqueles papéis assinados por você. — mentiu. 
— Desculpa, então. Quanto aos papéis, você pode passar aqui amanhã, certo?
— Ok, bom dia.
— Seu nome é...?
— Alfeu, da sala 302.
— Prazer em conhecer, Alfeu, tenha um bom dia também!    

 Alfeu entrou na sua sala, sentou em sua mesa, dobrou a manga da camisa, folgou a gravata e, olhando para um nada, abriu um imenso sorriso que durou alguns segundos e voltou a fazer o seu trabalho diligentemente.

Jehiel Casaes

1 comentários:

Lidiane Ferreira 28 de dezembro de 2010 10:40  

Ao ler esta crônica, lembrei-me um pouco do filme "500 dias com ela".
Gostei muito.

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