Feliz Ano Novo!

Enfim chegamos ao fim do ano, lembro-me de ter desejado em alguns momentos que ele acabasse logo, já que temos sempre a sensação de que os problemas irão acabar junto com ele. Só que agora estou até sentindo saudade. Por mais que eu me lembre da dor, das lagrimas, dos momentos difíceis, e como foram difíceis... Lembro também que foi nesses momentos amargos que pude me aproximar de algumas pessoas, que conquistei “melhores amigos”, que escutei Deus gritar, que acordei e com tudo cresci.
As aventuras vividas, as lagrimas derramadas, as palavras ditas e escutadas, as paixões, as decepções... Nossa, que ano!
Enquanto escrevo um turbilhão de cenas, momentos e vozes confundem meus pensamentos: “Agradecimento, Gratidão, Agradecimento...”, isso ressoa a cada lembrança.
Toda dor que um dia foi intensa, toda tristeza que parecia não ter fim, acabou. Como hoje me sinto feliz, feliz por olhar em minha volta e ver o amor de Deus sobre a minha vida, ver as pessoas que fizeram parte do meu ano de 2010. Que alegria Senhor! Queria poder colocá-la em frascos e distribuir para que eu não me sufoque com tanta felicidade dentro de mim e que vocês pudessem abrir quando se sentissem tristes. Sei que não posso fazer isso, mas que vocês saibam ver a Alegria e a Graça que o senhor deposita a cada manhã nas coisas a nossa volta, que cada pessoa que ler esse texto possa sentir um pouquinho dessa alegria e que principalmente os meus amigos tenham sempre a certeza de serem muito amados. Obrigada pelos risos, pelas palavras, pelas motivações, pelas broncas, exortações... Enfim, por todo cuidado, carinho e tempo compartilhado.
Então é isso, que venha 2011 que por mais que seja uma continuação do tempo, que a gente aproveite essa sensação de começo para reparar os erros, pra melhorar, e que Deus possa estar sempre no controle das nossas vidas, pois com Ele o ano certamente será maravilhoso!

Cosmopolitas

Elas são lacostianas, dolcegabbanianas, guccianas seus signos (ou seus humores) são determinados pelo símbolo que ostentam na camisa. Andam indiferentes a tudo, ignorando, como se fosse possível, o ar que respiram. Algumas tem souvenirs, Justins cópias da penúltima temporada de malhação, aqueles que mal conseguem dar atenção às suas damas e ao seu milk shake do bob's ao mesmo tempo. No período letivo são abatinadas como Vieiranas, Salesianas, Sartrianas, Mendelianas , mas no fundo do seus olhos ,atrás das sobrancelhas grossas, há um quê de cansaço que foi arrancado das costas da pobre empregada, que por aquela tarde não é obrigada a escutar as suas aporrinhações. Nas férias, saem todas iguais, como se continuassem fardadas, mas pagam mais caro e procuram mais pelas suas novas roupas. São as mesmas saias, sapatilhas, sandálias e etc.Enfim, sua origem é reconhecida tanto em Peri-peri quanto em Paris. Estão sempre a procura de um romance lunar, mas acabam com o garotinho da 8ª B que pega todas as meninhas, sabe 3 acordes no violão e joga bola com tênis de skatista. Fúteis e mimadas as meninas do Salvador Shopping, mas basta uma esticada de pescoço por cima de um ombro amigo que esse texto nem é meu...

Cotidiano


Segunda- feira é um dia diferente. É o primeiro teste.  Não sei se depois da ressaca emocional do Domingo e da tarde catártica e vazia de ideias do Sábado fizeram que minha cabeça deixasse de reconhecer a paixão da Quinta. Mas logo vem, não precisa vir de frente, não precisa ser por muito tempo, não precisa estar sorrindo, ou com rosto marcado pela exaustão da caminhada, precisa só se fazer conhecida pelas minhas veias que quase não suportam a quantidade de sangue que o coração desesperado em disparada bombeia. A segunda termina com sorriso de não-sei-o-quê .


Terça é o dia da coragem.  Mas só a observo.  Foi-se o teste, também evaporou qualquer dúvida do sábado ou do domingo, dias que parecem nem existir na cidade do Pó. É o dia de pensar em falar tudo aquilo que você tinha ensaiado e... nada. Logo vem o calafrio e foi-se a terça com gosto doce por ser só terça...

 Não adianta ele dizer que nunca sentiu algo parecido na sua vida. A paixão é como um filme da sessão da tarde, aquele que é bem repetido, mas nunca entendido ou assimilado. Hoje ele falou com ela, mal pode encará-la, foi um misto de pudor do pudor dela com fascinação excessiva daquela menina que indagava o trivial, e impressionava com o simples. Assim foi a quarta-feira ele falou com ela e a olhou nos olhos. Acabou o dia com impressão de ter sido puxado por Ulsain Boldt fazendo tudo em 9 segundos e blá blá blá milésimos... Façamos o tempo engatinhar na Quarta!

Quinta é o dia chave,  fazer alguma coisa ou deixar ser mais uma semana de minha vida? Ela cada vez mais parece uma pintura que o seu autor admirado com tanta maestria, não admitiu que seu moto, sua própria assinatura, atrapalhasse a pureza daquele quadro. Seus passos batucam em francês fino e romântico, como uma canção de Paulinho da Viola, assim parecendo que seu coração leviano palpita nos pés finos e aparentemente macios dessa meia-morena . 




Quem sabe?

"Só por isso você está triste?".

 Eu odeio ouvir isso, seja quando falam pra mim, seja quando vejo alguém ouvindo essa frase. Quem pode saber o tamanho da alegria ou da tristeza que vai dentro de cada um? Só Deus, meus caros, só Deus... 

Talvez quase tão infeliz quanto a frase acima só a: "Só por isso você ficou feliz?". Sentimentos não seguem regras logicamente racionais. Eles são e fim. Além de Deus, só o sentidor conhece seu mundo, o significado e o valor que cada coisa tem dentro dele.

"Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é", diz assim a música. Isso demonstra por que só uma pessoa pode saber o que a entristece e o que faz transbordar a alegria que há em si.

Sorte



Os gregos imaginaram uma mulher como ela quando descreveram Afrodite, a figura dos anjos foi inspirada na beleza daquela mulher, Sandro Botticelli sonhou com ela antes de pintar O Nascimento de Vênus. É verdade que o Alfeu exagerava na medida quando falava sobre Elora, a chefona da repartição, mas é realmente difícil discordar dele.

Verdade é que o ambiente de trabalho já não era mais o mesmo desde que uma nova funcionária chegou àquele lugar. Alta; cabelos ondulados (quase cacheando), loiros em sete tonalidades;  olhos castanhos; fazia boxe às terças e quintas; sempre muito bem vestida... Linda, mas muito séria também. Não sabia cozinhar, coitada, vai ver foi por isso que, mesmo sendo tão jovem, estava divorciada.

Subordinado a toda essa beleza e autoridade estava Alfeu, antigo funcionário da casa.  Um solteirão boa praça, gentil e malandro, boa companhia pro futebol ou pra missa de sétimo dia. Acima de tudo isso, era dedicadíssimo ao seu trabalho. Mas era solitário esse bom homem, quem o via tão do seu jeito nem imagina a imensidão de melancolia que havia dentro dele.

As coisas mudaram bastante quando a  nova patroinha chegou por ali.  Todos comentavam  a respeito dela em todos setores. O "amigão" também já não era o mesmo, aquela mulher despertou o velho tigre dentro dele. Ele, que era até um tanto quanto desleixado com as roupas, comprou novas camisas, passou a usar gravatas mais vezes durante a semana, usar bons perfumes amadeirados e, dizem as más linguas, perdeu até uns quilos. Não se sabe ao certo se ele estava verdadeiramente apaixonado, mas algo diferente, depois de tanto tempo, mexeu com ele novamente.

Ela passava, ele olhava e ela nem nada. Os relatórios eram entregues à chefe com diversas recomendações e com prestações insignificantes de detalhes, mas Elora nunca levantou os olhos para o bom camarada. No elevador, ele puxava conversas que eram quase monólogos.

— Não sei o que é pior: pegar esse engarrafamento de lá de casa até aqui ou achar uma vaga perto do prédio, né?— arriscou ele.
— É.

Outro dia mesmo, coitado, exalando feromônios e todo seu pseudocharme sedutor, tentou mais uma vez deixando secretamente um vaso de rosas vermelhas com um bilhete na sala da loira. Mas, para sua decepção, percebeu que as flores permaneceram estáticas e o bilhete não foi aberto. Alfeu continuou frequentando aquela sala para entregar relatórios, mas Elora jamais o olhou nos olhos. Isso comprometeu por demais o rendimento profissional do Dom Juan, seu serviço já não era mais impecável como sempre e ele já se mostrava emocionalmente abalado. Pobre Alfeu.

Algo que não pode ser dissociado ao mês de Dezembro é  a confraternização de fim de ano. O Alfeu de outrora era o protagonista desse evento na repartição. Já foi vestido de Papai Noel, já fez discurso emocionado, fez até papel de anjinho junto com o rapaz da copiadora em peça de natal. Nesse ano, entretanto, estava meio desmotivado. Não participou de nada, ficou meio longe dos festejos e, por não estar no clima, resolveu sair bem cedo sem se despedir de ninguém.

Passando pelos corredores mal iluminados e repletos de enfeites natalinos,  percebeu que uma certa porta estava entreaberta. Segurando o paletó por cima do ombro, deu uma  leve empurrada na porta e viu sua linda chefe chorando alto e arrancando pétalas das rosas de um vaso. Ao perceber a presença de outra pessoa, levantou-se enxugando os olhos e, muito cambaleante, foi na direção do Alfeu.

— Me desculpa, ouvi o choro e só abri a porta pra ver se está tudo certo. Licença... — tratou de dizer rapidamente.
— Seus olhos... Seus olhos são tão bonitos...
— Ah, obrigado. Eles mudam de cor tam... — ele foi interrompido por um choro desesperado e teve que ocupar os braços com uma bela mulher caindo.
— Seus olhos... —  repetiu Seus olhos são tão bonitos... — foram as últimas palavras que disse ela nos braços dele antes de beijá-lo como se tivesse acabado de reencontrar a humanidade depois de vinte anos numa ilha deserta com mais  duas freiras velhas. 

Bem, ninguém sabe ao certo o que levou-a a fazer isso e nem como esse episódio teve continuidade. É tudo pura especulação do pessoal. Mas as coisas não terminaram por aqui. No dia seguinte, ele foi procurá-la.

— Bom dia! Tudo bem?
— Tudo mais ou menos bem — disse ela com cara de enxaqueca, dirigindo atenção à ele pela segunda vez na vida — em que posso lhe ajudar?
  É sobre o que aconteceu ontem, eu não poderia deixar de vir aqui falar com você...
— Nossa, que vergonha! Eu não sei o que aconteceu comigo ontem, juro! Mas que bom que você apareceu aqui, tenho quase certeza que esqueci a chave do meu carro no seu carro.
— Meu carro? Não, nunca saímos. Eu vim buscar aqueles papéis assinados por você. — mentiu. 
— Desculpa, então. Quanto aos papéis, você pode passar aqui amanhã, certo?
— Ok, bom dia.
— Seu nome é...?
— Alfeu, da sala 302.
— Prazer em conhecer, Alfeu, tenha um bom dia também!    

 Alfeu entrou na sua sala, sentou em sua mesa, dobrou a manga da camisa, folgou a gravata e, olhando para um nada, abriu um imenso sorriso que durou alguns segundos e voltou a fazer o seu trabalho diligentemente.

Jehiel Casaes

Tá bom, Claudia. Senta lá...

É assim que somos controlados hoje. Não é mais com um déspota, um governo autoritário, ou até uma ditadura com uma fina máscara de democracia. Claro que há muitos casos de governos com esses perfis ao redor do mundo, mas nós, que nos dizemos massa crítica e amantes da liberdade, somos controlados por ela mesma.

Estava lendo a edição dessa semana da Carta Capital e a dimensão do caso de Julian Assange, fundador e representante do Wikileaks. Este site causou uma imensa revolução no tocante a informação. Vieram, ao grande público, informações que até então eram reservadas aos altos níveis de governos e embaixadas. Pela primeira vez informações não eram negociadas com poderosos, aqueles que deveriam ser fiscalizados pelo povo a partir delas. Genial! Até que incomodou demais e inventaram de prender  Assange. Ainda aí tudo certo na Bahia, porque a Wikileaks é uma sociedade anônima e tinha uma canalha de gente por trás de Julian, mas aí vem o motivo da revolta desse post, quarta-feira, dia 1 de Dezembro, O Tio Sam pressionou a Amazon a expulsar o site dos seus servidores e até quando eu escrevi esse post os Hashtags #WikiLeaks e #Assange estavam sendo censurados pelo twitter. E dia vai, dia vem pouca gente protesta, e o apoio tímido de alguns políticos acabam virando manobra da politicagem e não ajudam em nada.

Mas por que o mundo assiste a isso com tanta inércia? Só balançamos a cabeça dizendo: “ Que absurdo! O rapaz só quer fazer o bem”, nossas poltronas não aguentam mais ouvir isso. A humanidade é fã do “status quo”, só lutamos contra algo quando sentimos que está nos atingindo em cheio. Não percebemos que somos livres pela metade. Achando que somos por completo, só nos torna mais mansos e domináveis .  

O som do silêncio

A gênese do stress acontece quando o despertador toca. Daí em diante tudo é caos. Um familiar prepara o café na cozinha, cada tilintar de talher ou xícara soa como um martelo agredindo um prego. O telejornal matinal anuncia mais uma morte, mais um evento na cidade e finaliza com as notícias do esporte. Nada é captado pela mente, mas tudo é ouvido. Paz. Momento de entrar no banheiro. Espere... Eu disse paz? Não. O acender da luz, o clique do interruptor, o ranger do registro do chuveiro, o som da resistência que faz a água esquentar, a água caindo e finalmente o frasco do xampu cai no chão quando você tenta apanhá-lo no suporte. – Uma explosão – diz seu cérebro, mas não. Apenas foi o frasco do xampu caindo no chão. Daí vem o barulho da roupa sendo passada, os estalos ressoam no interior do ferro de passar roupas. Começa o noticiário nacional. Mais mortes, mais eventos, notícias internacionais e, finalmente, esportes. A porta é aberta. “Tchau, pai. Tchau, mãe”. Mais sons. O velho elevador desce lentamente. Um esboço de silêncio. Mas só um esboço. No abrir da porta as mesmas expressões estão agora diante de seus olhos. “Bom dia” é o máximo que é dito. O clímax do dia é atingido no ponto de ônibus trivialmente lotado. Pessoas falam e falam. Falam dos problemas, das conquistas, do time X, do time Y. Todos os dias. Carros, carros e mais carros. Um coral automobilístico. Tem tenores, barítonos, contraltos e sopranos. Entoam a canção do barulho. São bons no que fazem. Então vem o trabalho. Pessoas andando, barulho de sapatos femininos (ou não), telefone tocando, teclas sendo batidas, impressoras, chefe, o telefone toca novamente, música no celular, música no computador, fofoca, intriga, elevador, refeitório, mais talheres, mais marteladas, volta ao telefone, à música no celular, música no computador, fofoca, intriga, elevador, volta pra casa. O coral de carros está feroz. Trouxeram uma orquestra de metais com ele. Tem corneta, tem sax tenor, barítono e alto. Tem trombone, tem fagote, tem flauta e tem apito. Tudo misturado numa grande e épica ópera da vida cotidiana. De volta ao barulho doméstico. Televisão, novela, jornal, novela, latidos do cachorro de estimação, reclamações do pai, da mãe e da irmã ou irmão. Barulho de teclas, telefone, talheres e pratos reverberando na freqüência mais irritante. Escova de dente, água caindo, abre geladeira, fecha geladeira, sandália arrastando no chão, cama range e pronto. Liga o ventilador e pensa: “Será que nada é capaz de promover o silêncio? Ah, sim! O sono”. E aí você percebe que o relógio faz tic-tac. Cadê o silêncio? Quando souber, por favor, responda.

Bom tempo

Enfim, sua chegada foi comemorada e sentida por todos no lugar, não existiria samba campeão capaz de dissolver aquele momento, as retinas a acompanhavam até que faltassem o canto dos olhos e os pescoços fossem obrigados a virar cada vez mais à esquerda, e mais, e mais, até que os troncos fossem os comandados da vez, chegando num ponto que todos os corpos estavam na sua direção a observando, como se tudo se desvanecesse (o barulho das fotocopiadoras, o burburinho das meninas, Helicóptero).

Seus olhos que por muito pouco não estão nos céus, ainda não transcenderam porque o sol é muito invejoso e pequeno, não podendo ter uma sacerdotisa tão mais bela. Ele se envergonhou, um anjo emudeceu, nem uma brisa soprou, quando ela entrou por aquele portão. 

Público

Falávamos sobre o quanto temos frequentado o Burger King ultimamente e no quanto isso é nutricionalmente comprometedor, mas passando por perto e com muita fome é impossível resistir. Entrei no drive in thru e esperei alguns minutos naquela fila demorada.Quanto mais perto se chega do caixa, mais tempo leva pra ser atendido, acredite. Daria pra ter feito corinho com a discografia completa dos Beatles. Depois de tanta conversa e espera, enfim, atendidos.

— Boa noite, senhor, qual é o seu pedido? 
— Me vê um n°9 quádruplo e... Cê quer o quê?
— Tanto faz, pega qualquer coisa aí...— respondeu ela ao meu lado.
— Ah, tá, pra você ficar reclamando depois? Não mesmo, escolhe aí.
— Pega a mesma coisa pra mim então.
— Pronto, um n°9 quádruplo e outro duplo. Ah, dois sundaes de morango também.
— Você poderia ter escolhido o pedido antes de chegar aqui, Jehiel.— retrucou ela no carona.
— Jehiel? Jehiel do Insanoscópio?— perguntou a moça do caixa. 
— Sim, sim, sou eu mesmo.
— Li seu último post, o da fazenda. Sempre leio seus posts.
— Nossa, que massa! Lê mesmo, é?
— Leio sempre sim, mas não gostei do último. Percebi que o que você realmente queria era explorar a questão de assumir os riscos e pagar o preço pra poder conquistar algo preciso. A idéia é interessante, mas você não desenvolveu bem.
— Puxa, percebi  isso também. Quando terminei, vi que deveria ter trabalhado mais os dois últimos parágrafos.— respondi debruçado no volante e meio perplexo.
 — Sei, entendo. Trinta  e três e setenta, senhor. À vista?
— Sim, sim.

Muitos minutos depois, retirando o pedido, ela se manifesta.

— Quer dizer que o "senhor" está famosinho, hein?— disse ela conferindo o pacote— Sundae de morango?! Eu queria de chocolate, Jehiel!!
— É morango e acabou, presepeira. E não coloca o refri no painel, senão cai e mela tudo de novo! 

Acordei, levantei e não me lembrava mais como esse sonho tinha começado e terminado. Isso dá uma raiva...

Jehiel Casaes

 

Refazenda

Alguma coisa tem que ser feita quando as crianças saem de férias. Por diversos motivos. Elas precisam ir aos parques, pro cinema, gastar energia com futebol e patins, pular corda, brincar de elástico, pisa-pé, agredir umas as outras, dormir tarde, acordar cedo, não dormir e fazer todas as outras coisas que você fazia quando era uma.

Algo bem típico dessa temporada também é ir pra fazenda. Crianças deixam seus pais e os apartamentos da cidade e vão pra um ambiente muito diferente da realidade urbana. Pode haver sim uma resistência inicial pra ir a um lugar tão diferente, os clássicos filmes da Sessão da tarde comprovam isso, mas, diante de tanto espaço e de um mundo de coisas diferentes, é impossível uma criança "autêntica" ficar quieta.

O dia reserva inimagináveis aventuras. São animais pra cuidar e montar, são gangorras debaixo de antiquíssimas árvores, são incontáveis goiabas pra comer (e roubar) com primos e amigos, são passarinhos pra estilingar, são riachos gelados, estradas de barro, campos pra correr de bicicleta, amanhecer, entardecer e milhares de outras coisas que algumas pessoas só viveram assistindo Sítio do Picapau Amarelo. Isso é felicidade.

Mas chega um momento em que bate o cansaço e é preciso se abrigar em uma casa. Lá fora tudo é escuridão, tudo é mistério. Dentro de casa, todo folclore da imaginação apavora. Cada barulho, cada sombra na janela provoca medo. As árvores no escuro são assustadoras, carregam bichos, monstros e fantasmas. O barulho do vento nas folhas assusta, o barulho dos bichos assusta, tudo é sombrio. À noite, as crianças são reféns das trevas.

Interessante como, a depender do momento, uma mesma coisa pode ser fonte de prazeres exaustivos ou de medos angustiantes. Mas é preciso viver. A noite passa e  a manhã já traz outras surpresas. Crianças podem até temer a noite a ponto de permanecer eternamente em seu conforto, mas só as que se arriscam, mesmo tendo medo também, podem desfrutar de toda excitação de um dia na fazenda.

Jehiel Casaes 

AVISO

Em virtude de alguns fatos desagradáveis, promovidos por pessoas desagradáveis maravilhosas eu decidi, sem consultar os demais autores, tomar algumas medidas com relação ao Insanoscópio.

Primeiramente, para quem não conseguiu entender, a proposta do blog não é ofender ninguém, nem de mostrar o quanto nós somos superiores (até porque isso NÃO é verdade).

"O blog não tem estilo literário definido, nem assuntos limitados. Vamos falar de tudo e de nada; do velho e do novo; do engraçado e do sério. Ainda assim, vocês vão perceber o estilo de cada escritor de forma muito clara. Lê quem quer ler. Divulga quem curte e acompanha a gente. Se somente nossos amigos acessarem, estaremos no lucro."
Texto retirado da descrição do Insanoscópio, um lugar extremamente difícil de ser localizado e de leitura infinitamente complicada.

Mas esse não é o centro da questão. Acontece que há algum tempo pessoas (sim, mais de uma) têm se utilizado do anonimato permitido pelo blog pra manifestar suas opiniões (vocês poderão acompanhar tudo nos textos antigos). Até aí, "nada" de errado.

O lance é que uma dessas pessoas começou a direcionar acusações que ela não tem o mínimo de fundamento para faze-las. A começar pela falta de coragem de vir até os autores e conversar a respeito (nada mais justo, concordam?). Não entrarei em detalhes. Esse ainda não é o foco desse post.


A partir de hoje (29/11/2010, segunda-feira) não iremos permitir comentários de "Anônimo". Apenas o direito de tréplica do último post será aceito.


Qualquer outro comentário seja elogiando, denegrindo, falando baboseira, inteligente, tapado, engraçado, ofensivo, compassivo, egoísta, altruísta SERÁ DELETADO. E esta decisão nem meus amigos escritores serão capazes (não por falta de capacidade, mas porque entendo que eles compartilharão da mesma ideia que eu) de me convencer do contrário. Se discordarem, whatever.

Então é isso. Quem quer que seja o "Anônimo" fará seu último comentário pra responder o que foi dito por Jehiel e por mim. Se não responder ao assunto em questão o comentário será deletado.


Sem mais,


Kiko Pereira

Será que...


Com os últimos acontecimentos que pairam neste blog percebo o quanto ainda se faz latente esse incomodo com a apatia masculina. É verdade que o ser anônimo pode não ser nem uma mulher, seja apenas alguém curtindo a ideia de ter algum tipo de ibope na vida, ainda que anônimo. Mas vou aproveitar esse ensejo.

Há muito ouço e participo de discussões indignadas em rodas feministas em relação à postura masculina, e por vezes me vi enfurecida por acreditar que eles, jovens garotos que despertam certo interesse em algumas nós, não eram "capazes" de tomar uma atitude.

Isso é tão comum que já parei pra pensar sobre o assunto algumas vezes e já tive a oportunidade de ouvir diversas vertentes com opiniões enriquecedoras de ambos os sexos. É muito provável que não haja uma aceitação das leitoras, algumas irão se identificar e por isso sua revolta aumente, ou talvez discordem completamente.

O caso é: será mesmo que eles não têm coragem o suficiente para falar com você?

Nós, mulheres, criamos tantas "teorias" quando nos interessamos por alguém, que hoje posso identificar uma série de estágios pelo qual passamos, estágios esses que ainda variam para tipos e tipo de mulheres. Tentarei aqui relacionar alguns deles:

1. Ao se interessar...

Agimos como tolas e fazemos de tudo para não sermos "desvendadas". O problema é que ninguém ensinou como fazer isso, então fazemos o oposto, escrevemos na testa e apesar de já imaginar que todo mundo já notou, continuamos piorando a situação. Então, eis que surge aprimeira teoria: "Se eu o ignorar, ele nunca vai perceber". Eu sinceramente não sei quem foi que disse que isso funcionava... primeiro porque dificilmente você vai ignorar alguém que gosta e segundo que se ele estiver afim pode estar pondo em risco uma relação futura.

2. Para saber se ele também se interessa...

Continuamos agindo como tolas e antes mesmo de termos certeza, todo mundo já tem. É a teoria de que falar pra uma ou duas amigas, que falaram pra mais duas e assim por diante... Vai chegar aos ouvidos do “alvo”, assim, só pra saber se há um interesse da outra parte também. É, certamente chegará, mas sabe como é telefone sem fio né?! (Essa teoria é bem mais na fase teen).

3. Eleé tão gentil que...

É obvio que ele quer agradar! Fala sério meninas! Hoje eu estou começando a achar que os meninos têm deixado de ser cortês em alguns momentos, porque talvez seja uma forma de defesa. [Claro que isso não justifica a falta de cavalheirismo, ou pelo menos educação de alguns. Porque se todos eles fossem sempre assim, por natureza, e com todas, nós não nos espantaríamos quando um agisse gentilmente].

4. Ah, esse tipo de brincadeira...

Com certeza quer dizer alguma coisa... Por quê? Eu realmente não entendo porque um cara brinca ele tem que ter algum interesse em você, talvez ele seja só “brincalhão”.

3. Ah, então ele deve ser...

Cego, tímido, lerdo e por fim, covarde!

o queremos acreditar na possibilidade de ele não estar afim de nós.

E por isso criamos teorias, ideias e desculpas. Independente de quem seja o “anônimo” fica um alerta para as meninas e deixo bem claro que não estou defendendo eles por completo, só aproveitei a oportunidade e por isso eu agradeço a deixa que você me deu para falar de algo muito discutido e pelo ibope que você tem nos dado, afinal ninguém sabe quem é o anônimo, mas todos sabem como chegar ao Insanoscópio.

Where's Wally??


Eu respeito os comentários que chegam ao blog. Acredito que meus amigos compartilham da mesma opinião que a minha. Uma das maiores perdas para o Insanoscópio no atentado, cujo impacto mudou nossa vida, foi, sem sombra de dúvida, os comentários dos leitores assíduos.

Se eu fosse seguir conselhos de alguns eu nem estaria escrevendo esse texto. Mas quero dar a César o que é de César. Algo curioso me chamou a atenção nos últimos posts (ainda que eu tenha me privado de comentar sobre os textos) foi a presença de um novo leitor. Estou falando de Anônimo.

Recheando os textos com seus comentários, este ser demonstrou uma capacidade gigantesca de amar e odiar. Tamanha oscilação de humor poderá ser vista por vocês no decorrer do texto. Sei que podem ser diferentes pessoas, mas vou partir do pressuposto que seja à mesma (ainda que sejam várias pessoas por trás do mesmo nome, existem características comuns entre os comentários).

Tudo me leva a crer (com base nos elogios escritos) que nosso ser oculto é uma mulher. Ok... pode ser um homem utilizando a ferramenta da omissão para se divertir. Vamos analisar as duas possibilidades.

Se for um quase homem eu só consigo pensar na seguinte pergunta: Por que você, homem corajoso, não coloca seu nome? Questiona a “ineficácia” dos escritores quanto ao saldo positivo no campo amoroso / afetivo e não tem sequer a coragem de dizer seu nome. Honrável a sua postura. Eu estranho que você, que deve ser um grande garanhão, tenha tanto tempo de sobra pra vir comentar no blog. Gaste seu tempo com sua (s) mulher (es). É mais louvável estar dando atenção à sua namorada, se é que ela existe.

Caso o nosso “Arauto da Escuridão” seja uma mulher (e as razões para eu pensar que seja uma são bem convincentes)... a coisa está feia pra seu lado, né? Ter que se sujeitar a tal papel pra se fazer notável é porque, como se diz aqui na Bahia, “o bicho ta pegando”, hein? Não me resta nada a não ser pensar que você é um brócolis ressecado, um alface murcho, ou um molho de coentro despedaçado. A sua condição de solteira te afeta tanto que na sua mente essas são as mais eficazes formas de chamar atenção. Parabéns, você conseguiu. Só quero te dar alguns alertas: 1) você vai ficar solteira; 2) você vai ser mais feia que o normal; 3) não estamos nem aí pra você.

A covardia permeia muito mais a sua vida do que a nossa. Todo tema abordado aqui foi, em qualquer grau, experimentado pelos autores. Realmente pela Internet tudo fica fácil de ser dito. É por isso que você tem a oportunidade de se esconder. Estamos a seu dispor para uma franca conversa tète-à-tète, caso você julgue necessário.


Histórico de comentários (agora com comentário!!!) Fiz questão de manter a escrita original ainda que tenha ferido as normas gramaticais de escrita.

Com carinho,

Anônimo... quer dizer... Kiko Pereira



16/11/2010

06:41 - “Me apaixonei pela sua letra!Ass: Sua eterna admiradora” - Temos aqui a mais pura demonstração de carinho, aguardando uma resposta do escritor.

12:25 - “Como eu queria ser esse papel, para você repousar essas suas mãos em mim...” – Mais uma tentativa, sendo mais explícita com relação ao que sente (observem que o desespero é visível pelo “curto” espaço de tempo entre um comentário e outro).

18/11/2010


05:54 - “Vocês são românticos lindos e escrevem bem, não sei como é que ainda estão solteiros.” – Impressionada com o grau de romantismo dos blogueiros demonstra com palavras o quão injusto é o estado de solteiro. Foi uma espécie de “Meninas, fiquem atentas!!!”

09:39 - “Realmente os últimos post foram bem melancólicos, APESAR DE hoje ser bem raro encontrar garotos com essa sensibilidade e percepção da realidade, de tal forma que essa característica singular muito embeleza os textos [e talvez a pessoa, não sei, não conheço] de vocês. Parabéns, meninos.” – Mais uma tentativa de aproximação.

19/11/2010

09:04 - “Vcs escrevem muito bem. Parecem estarem apaixonados hem...rsrs” – Aqui fiquei na dúvida se foi a mesma pessoa... fugiu do padrão dos comentários.

10:34 - “Interessante é ver que nas palavras mandam tão bem, porém quando precisam tomar alguma atitude comem mosca. O que falta em vocês é ousadia, não no sentido pejorativo, mas no sentido de ter coragem de arriscar.” – Aqui já é possível enxergar a indignação e desespero da nossa “Princesa da Noite”. Ao contrário de nós, ela teve ousadia o suficiente pra se prestar a esse papel.

21/11/2010

18:03 - “Gérsica Bagano,não penso assim.Não confunda romantismo com covardia de chegar em uma menina.É como dizem,falar,qualquer um fala,ainda mais na Internet com tantos recursos a serem utilizados. Pq na prática ainda estão solteiros?Quem conhece sabe das meninas que eles desejam, e pq eles não têm a coragem de chegar até elas e falar todas essas coisas?Sejam homens por completo e não só pra escrever na Internet.” – Após a tentativa de defesa por parte de uma menina, Anônimo fica indignado (a) e entra com tudo!!!

Aversão ou A versão


"Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu."
Eclesiastes 3.1

Os vídeos abaixo são diferentes versões de uma mesma música. Vale a pena assistir pelo menos a de Djavan.














A música Palco é composição de Gilberto Gil e foi lançada no álbum Luar, de 1981. Esse é um grande sucesso de Gil que foi regravado por outros intérpretes. Dois deles foram Djavan e Jorge Vercilo.

A mesma música, várias versões. Dá pra gostar de uma e não gostar das outras, dá pra gostar de todas ou de nenhuma. Depende de muita coisa. Depende muito do momento. Existe a possibilide de alguém não curtir nem um pouco o trabalho de Jorge Vercilo e ouvir palco pela primeira vez na voz dele. Há também a possibilidade de conhecer essa música ouvindo Gil, gostar muito e acabarbar achando interessante as outras versões. Pode haver também a possibilidade de, ouvindo a de Djavan, alguém achar que é impossível fazer melhor. Existem inúmeras possibilidades. 

Acredito que todas essas possibilidades estão relacionadas à maneira que se conhece a música. Uma boa impressão pode abrir espaço para conhecer novas versões, e as más impressões podem comprometer irreversivelmente o que se acha a respeito dela. Ou não.

Vejo muito isso nos meus amigos e nos que não são meus amigos. Conheci os primeiros no momento exato, no "tempo" exato. Eles, assim como todo mundo, têm várias versões,  várias estações. Às vezes gosto delas, às vezes critico-as, mas sempre conheço elas.  Talvez, se tivesse conhecido eles em outro momento, não seriam meus amigos. Os que não são  têm suas virtudes também, mas eu não conheço, ou não quero conhecer.Talvez eu tenha conhecido eles num momento pouco atraente, numa circunstância em que não era possível eu me interessar por suas variadas versões. Mas acredito que esses ainda podem me surpreender bastante. Talvez esse ainda não seja o tempo determinado para esse propósito.

Jehiel Casaes

Benjamim pela primeira vez

Sempre quando ele olha algo parecido com ela, enlouquece, seu coração dispara, seus olhos saltam como se rebelassem contra o dono e tivessem domínio das suas ações. Tudo para ele faz com que a dor da sua falta- que nem tem muita razão de ser, até porque falta só se faz com a presença-  assuma posição feudal e irrevogável, e sua disritmia, seja serva contente .

Mas ela é perfeita...

Sua perna esquerda levemente flexionada para fora, como uma menina envergonhada contando uma traquinagem ao pai, seus olhos tem gosto de chocolate meio-amargo.  A constituição do nariz com a boca é impecável. Os dois não são perfeitos, nem belamente desenhados, mas combinam inexoravelmente um com o outro.

Pobre rapaz, tem todas as cores do mundo roubadas por um vestido rosa, toda graça do mundo resumida em um sorriso aparelhado, e toda sua felicidade apagada por um “tchau” que nem sequer foi pra ele...

Cartas


Não desse jeito

Eu não sei como é que as pessoas continuam comprando essas revistas com fofocas e resumos de novelas, parece que não sabem o quanto aquilo está encharcado de mentiras. Elas são um sucesso, nunca saem das bancas e das prateleiras de mercado. As mentiras e as revistas. Não sei, parece que há algum tipo de emoção em descobrir o que é profeticamente correto. É uma loteria literária, sabe?

Essa imprensa passa todo tipo de informação, mas a gente nunca sabe se aquele ator realmente usa drogas; se aquele outro terminou o casamento porque foi traído; se fulaninha realmente fez aquela lipo; se nessa semana o assassino-vilão-master vai ser pego na novela das oito e coisas parecidas. Mas de uma coisa podemos pode ter certeza, elas não são confiáveis. A gente pode até comprar uma um dia, ler cuidadosamente, depois colocar  o cachorro pra fazer o trabalho sujo nela e, enfim, vendo as novelas, descobrir que foi pura perda de tempo consumir aquilo ali. Mas mesmo assim é difícil ficar decepcionado.

É, sabemos que são previsivelmente decepcionantes, portanto, já vamos nos preparando pro que der e vier. "Acertou, Caras? Beleza! Outra furada, Tititi? Aaah, eu já sabia!" . Uma coisa mais ou menos assim acontece quando verdadeiros amigos erram conosco. Já conhecemos suas fraquezas, suas limitações, seus defeitos e, quando as coisas vão desalinhando, é mais fácil entender os motivos dos vacilos. Assim, é mais fácil perdoar e saber que aquilo pode acontecer outra vez, mas é possível aprender a lidar e conviver com isso. Acaba não sendo uma grande decepção, mas uma natural falha humanamente aceitável. Ou não.

Complicado é decepcionar a si mesmo quando acreditamos que uma pessoa é o que acreditamos que ela seja, quando, na verdade não é. Ela não precisa necessariamente ser falsa ou dissimulada, basta que sejam alguém diferente do que , no íntimo, imaginávamos que fosse . Dessa maneira, repito, é decepcionar a si mesmo. O que é muito mais cruel.


Ou não.
 


 Jehiel Casaes

Noite de Santo Antônio

[...]tinha sido uma noite muito estranha, como todas as outras naquela semana. As horas passavam apinhadas de incertezas, sorrisos, proibições e concessões . Mas depois de muita palestra diplomática, lá estavam os dois. Os lábios dela - o inferior e o superior- discutiam entre eles sobre a melhor arrumação. Os lábios dele simplesmente formigavam, como se braços estendidos estivessem prestes a brotar deles. As bocas eram tão soberanas que no momento não existia mais palpitação, olhos e respiração, só o amor que eles acolhiam no espaço molecular do beijo [...]

Quarta-feira verde do Extra

Quero deixar claro que o post contém trechos que podem ofender algumas mulheres e render certas retaliações para mim. Mas entendam que o exemplo que dei foi baseado na minha conversa. A visão exposta aqui pode servir pra vocês mulheres!!!

Num bate-papo casual com uma amiga (casada e preocupada com minha solteirisse) no MSN, me deparei com o seguinte diálogo:

[Amiga]: Quiquinho, como você está?

[Kiko]: Oi [não vou divulgar o nome da pessoa]!!! Tudo bem, sim! E você?

[Amiga]: To bem!!! Conte-me, o coração como está?

[Kiko]: Muito bem, por sinal. Ta até me pedindo uma “coraçoa”! Heuhehuehue!!!

A conversa vai seguindo seu rumo e de repente ela me diz:

[Amiga]: Vocês homens complicam demais (...) Mas vocês ainda estão na vantagem...

[Kiko]: Como assim estamos em vantagem?

[Amiga]: A oferta pra vocês é muito maior. As coisas ficam mais fáceis.

[Kiko]: A oferta é grande, mas é que nem a “Quarta-feira Verde” do Extra. Na propaganda a fartura e a qualidade são supervalorizadas. Na hora H só a fartura permanece... a qualidade é difícil de ser encontrada.

A conversa termina com muita risada e comentários sobre o assunto.

O lance todo desta situação está no fato das pessoas sempre tentarem ajudar quem está sem namorada (o) a qualquer custo. Uma atitude louvável quando se avalia na esfera da amizade, mas algumas peculiaridades fazem esta atitude perder sua eficácia:

1- Geralmente, quem tenta arrumar alguém para “preencher” o espaço no coração de alguém já tem o seu preenchido. Nunca vi um solteiro se matando pra achar alguém pra o amigo ou amiga, a não ser que este seja um caso perdido. Com isso, o amigo que tenta promover perde o conhecimento da vida ímpar.

2- Essa pessoa não enxerga a pessoa indicada como alguém que aquela encararia, caso estivesse na condição de solteira. É um fato.

3- Por viverem as maravilhas da vida a dois nossos amigos perdem a noção do que promove a aproximação de duas pessoas: a identificação inicial, o coração acelerando, frio na barriga, a vontade de estar sempre perto. Enfim, os principais elementos catalisadores de um romance que, em tese, será eterno. Nós, chamados de amantes à moda antiga, somos taxados como complicados, exigentes demais, apáticos e algumas vezes de coisas piores.

Deixo aqui meu alerta aos pragmáticos. Não troquem a essência dos sentimentos, nem o prazer de senti-los pela simples necessidade de ter. Valorizem a etapa inicial de um romance. Ali é que são estabelecidas as bases do relacionamento.



Kiko Pereira

"...Seu All Star azul"


Acho que o All Star foi a melhor coisa que já coloquei nos pés um dia. Não comecei a usá-lo quando criancinha, na verdade, eu já era adolescente quando comprei o meu primeiro. Azul, cadarços brancos, cano curto, tamanho 42 eu acho. No começo, era fanatismo mesmo. Eu usava os meus em todo lugar, ficava horas vasculhando o site do fabricante, pesquisando a história do modelo, aprendendo a fazer diversas tranças e amarrações. Eu só falava em All Star. Minha família e parte dos meus amigos cansaram de mim por um tempo nessa época. Quando eu saía à rua, eu via todos os All Stars possíveis e os contava. Por cor. Descobri que todos os filmes que existem sobre a face da Terra têm alguém usando um par desses tênis. Grande parte dos meus amigos tinha um, era quase uma irmandade. Pra mim, todas as pessoas legais do mundo usavam All Star, todos os Vj’s da Mtv usam, todos os grandes astros do rock sempre usaram. Quem é que abre o clip “Smells Like Teen Spirit” do Nirvana? Certa vez, depois de dez anos sem contato nenhum, reencontrei a primeira menina que gostei na vida. Foi na minha turma do 2°colegial, primeiro dia de aula. Uma das primeiras coisas que falei foi sobre o All Star vermelho que ela usava na primeira série. Ela ficou vermelha também. Ainda tenho um preto de cano alto que já foi todo riscado com refrões de rock do tipo: “nós não precisamos saber pra onde vamos, nós só precisamos ir”. É, durante um bom e fútil tempo da minha adolescência eu acreditei que não precisaria calçar mais nada na vida. Aos 13 anos, tinha encontrado algo exato pra mim, algo que me deixava plenamente satisfeito. Nenhum outro calçado combinava tanto comigo e nem poderia ser tão bonito, versátil e agradável de usar.

Acho que os amores platônicos são muito assim também. Sei lá, parece que um dia se encontra a pessoa mais perfeita do mundo, milimetricamente feita pra você, mais cheia de defeitos suportavelmente adoráveis. Parece que os outros seres humanos são só seres humanos quando comparados a todo encanto sobrenatural que envolve a pessoa amada. Essa pessoa está em cada música, em cada livro, em cada esquina e em tudo que há de mais belo na vida. O mundo gira em torno desse alguém. “Eterno amor” e “razão do meu viver” são clichês de espécie básica. A característica mais marcante do amor platônico é a idealização do sentimento sendo correspondido e manifestado pelo outro, o que de fato não pode acontecer num amor platônico, pois ele é plenamente ideal, não pode se manifestar no mundo concreto. Sendo correspondido, ele perde sua essência. Mas o amor não precisa necessariamente ser correspondido para que seja legítimo. Precisa? Na verdade, o outro nem precisa saber da existência do amante. Ele se satisfaz só por estar amando. 

Sei que existem incontáveis modelos de tênis mais confortáveis, mais resistentes e mais úteis que o All Star. Hoje ele já não combina com todas as roupas que uso e preciso usar. Não tenho nem um pouco daquela obsessão juvenil materialista. Mas, sabe, eu ainda adoro esses tênis. Porque, por mais que eu passe um bom tempo sem usá-los; por mais que a “teenager obsession” já tenha ficado para trás; por mais chato que seja vê-los sendo desgastados em outros pés que não os meus; por mais que não continuem sendo os meus favoritos, eu sempre vou ter lembranças especiais e significativas quando encontrar um andando por aí. Ao amor platônico servem esses mesmos exemplos, porque, da mesma maneira, depois de um tempo as coisas quase sempre passam a ser analisadas com frieza racional. Acaba se descobrindo que aquela pessoa não era a mais bonita, a mais perfeita e muito menos o último ser humano do planeta. Esse amor platônico deixa de ser um conflito e passa a ser uma lembrança patética. Talvez até engraçada, mas sempre significativa. Porque algumas pessoas são únicas.

 Ou não.

Jehiel Casaes 

Narcisum Salvatis

Lembro-me quando tinha entre 6 e 7 anos e minha mãe havia chegado de viagem bem entusiasmada com uma peça da Broadway – O Fantasma da Ópera. Mais especificamente lembro-me da cena onde estávamos sentadas no chão da sala, em frente ao som, ouvindo o CD que ela trouxera do grande espetáculo. Ali ela relatara em detalhes a tragédia, o romance e o suspense envolvente em que era regida a peça. Enquanto as palavras saltavam de sua boca cheias de expressão, ao fundo as vozes inebriantes serviam de mecanismos para formação de algo dantesco em minha mente, eram imagens, que eu criara sem ver com os meus olhos, baseados na percepção da minha narradora, mas era os meus outros sentidos que se faziam capazes de formular cada detalhe visual.
E é com essas lembranças e tantas outras que entro em um paradoxo: a visão nos cega. Naqueles instantes eu conseguia organizar o meu próprio modo de vista, meus ouvidos captavam informações e a partir dali meu cérebro se tornara um mar no infinito da imaginação. A imagem formada pela retina é o famoso rótulo que as pessoas levantam em debates, é apenas a primeira imagem propriamente dita. Preferia caminhar com os olhos vendados, pois minha visão é preconceituosa, não sei se consigo olhar sem julgar, ainda que seja um “bom” julgamento, quem poderá afirmar que o que os olhos ali vêem é o que realmente é?!
Hoje entendo o que a frase, clichê, “o que os olhos não vêem o coração não sente” quer dizer: se não fossemos atraídos pelo rótulo talvez nós não nos frustrássemos tanto com os falsos produtos, obviamente é apenas uma das tantas vertentes que se pode interpretar, mas não deixa de ser um fato.
Eugene Bavcar, um fotógrafo cego, indaga: “Mas vocês não vêem corretamente, vocês são cegos. Pois hoje vivemos num mundo de cegos. As imagens são propostas pela televisão, imagens prontas”. Somos reféns da imagem, e o pior, reféns de imagens transpostas por alguém. É como se as imagens estivessem sempre procurando quem as compre. Às vezes canso de viver nesse mundo onde quem vê cara deduz o coração, onde as pessoas são vítimas da vaidade exacerbada e tendem a se moldar pra fazer parte de um núcleo de atenção desejável. Talvez se Narciso fosse cego ele não teria morrido afogado.

O Insanoscópio

O blog não tem estilo literário definido, nem assuntos limitados. Vamos falar de tudo e de nada; do velho e do novo; do engraçado e do sério. Ainda assim, vocês vão perceber o estilo de cada escritor de forma muito clara. Lê quem quer ler. Divulga quem curte e acompanha a gente. Se somente nossos amigos acessarem, estaremos no lucro.

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